domingo, 27 de fevereiro de 2011

O Oráculo de Delfos

Caro Mendel,

Na obra The Delphic Oracle, Joseph Fontenrose traz informações esclarecedoras a respeito do santuário religioso de Delfos.

Utilizando-se dos escritos de Heródoto e Plutarco, principalmente Plutarco, que conhecia bem o ritual adivinhatório, pois fora sacerdote do Oráculo, tendo até presenciado consultas e escutado as respostas, Fontenrose conclui que durante as sessões não havia vapores provenientes de fendas na terra, nem frenesi, nem delírio ou palavras desconexas que eram interpretadas por sacerdotes.
A própria Sacerdotisa respondia as consultas numa linguagem clara, direta e coerente.

Geralmente, a pessoa ia ao Oráculo em busca conselhos, sendo os motivos da consulta, na maior parte, político e religioso.  O que devo fazer? Qual divindade eu devo agradar? Qual é a verdade sobre tal coisa? É melhor fazer desta ou daquela maneira?

Por exemplo: consultada pelos Espartanos se era preferível fazer guerra contra os Atenienses, a Sacerdotisa respondeu que “se lutarem com todas as forças, serão vitoriosos”.
Outro exemplo é o sacerdote embriagado que teve relações sexuais com uma mulher, e foi ao Oráculo, a fim de saber se havia absolvição para a sua ofensa, ouvindo da Sacerdotisa que “Deus perdoa todos os atos impensados”.

 Querendo saber para onde tinha ido a alma de Plotino, um consultante ouviu que “ela havia retornando às delícias do paraíso, onde estavam Platão, Pitágoras e Minos”.
Ou, quando alguém indagou e a Sacerdotisa respondeu que não havia ninguém na Grécia mais sábio do que Sócrates, uma vez que o filósofo afirmava “só sei que nada sei”.

Portanto, aconselhamento com responsabilidade exigia da Sacerdotisa um profundo conhecimento de si - que supõe também o conhecimento do outro e uma grande intuição espiritual - e o conhecimento de como agem as leis eternas da Natureza, isto é, a lei do ritmo, a lei de ação e reação, a lei das polaridades e a lei de causa e efeito.

Profecias enigmáticas, igual a que as Parcas fizeram a Macbeth na obra de Shakespeare, dizendo que ele “jamais será vencido, até que a floresta de Birnham venha para Dunsinane”, são consideradas por Fontenrose lendas ou criações literárias, e dificilmente sairiam dos lábios da Sacerdotisa.

Com afeto.
Avô Pietro


Um comentário:

  1. Sim, Valdi, obrigado pelo esclarecimento, você tem razão, a lenda original diz que a Pítia inspirava vapores que saiam de uma fenda no solo, esse negócio de ervas na gamela sustentada pela trípode é viagem minha, se bem que pensando bem, essa coisa de vapores também deve ser papo, pois naquela região mediterrânea vulcânica, vapores vindos das profundezas devem conter um teor enorme de gás sulfúrico, altamente tóxico, não ia ter pitonisa que aguentasse um troço desses.

    Quanto ao que diz Fontenrose sobre as respostas “muito claras” da Pítia, eu ainda tenho minhas dúvidas. Isto porque em comunicação há que considerar o comunicando e o comunicado. Eu considero a comunicação “hermética” (entre aspas) da Pítia um exemplo clássico e ainda atual sobre a dificuldade de entendimento quanto aos sinais. Veja você em que mundo estúpido nós vivemos apesar de todos os sinais que estão aí para orientar qualquer indivíduo e sociedade. Insisto que não é que a Pítia era necessariamente hermética, mas sim que seus interlocutores eram, na maioria das vezes, umas antas.

    Mas o que importa é que o que eu queria era viajar no mote proposto por você, qual seja “conhece-te a ti mesmo”, escrito no frontão do oráculo. Penso que o melhor oráculo é o que se encontra no interior de cada um de nós, e não terá sido por outra razão que Apolo, para merecer o oráculo de Delfos, teve que matar a Píton cortando-a em duas, abrindo e expondo o seu interior comprido, comprido...

    Proponho agora encerrar esse diálogo e convidar seus amigos (você certamente os tem muito interessantes) a vir participar com este e outros temas, eu gostaria de lê-los e me enriquecer. Desculpe usar você novamente para poder publicar comentário, mas não consigo publicar eu mesmo de jeito nenhum.

    Abraço,

    Mendel

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