Caro Mendel,
Na obra The Delphic Oracle, Joseph Fontenrose traz informações esclarecedoras a respeito do santuário religioso de Delfos.
Utilizando-se dos escritos de Heródoto e Plutarco, principalmente Plutarco, que conhecia bem o ritual adivinhatório, pois fora sacerdote do Oráculo, tendo até presenciado consultas e escutado as respostas, Fontenrose conclui que durante as sessões não havia vapores provenientes de fendas na terra, nem frenesi, nem delírio ou palavras desconexas que eram interpretadas por sacerdotes.
A própria Sacerdotisa respondia as consultas numa linguagem clara, direta e coerente.
Geralmente, a pessoa ia ao Oráculo em busca conselhos, sendo os motivos da consulta, na maior parte, político e religioso. O que devo fazer? Qual divindade eu devo agradar? Qual é a verdade sobre tal coisa? É melhor fazer desta ou daquela maneira?
Por exemplo: consultada pelos Espartanos se era preferível fazer guerra contra os Atenienses, a Sacerdotisa respondeu que “se lutarem com todas as forças, serão vitoriosos”.
Outro exemplo é o sacerdote embriagado que teve relações sexuais com uma mulher, e foi ao Oráculo, a fim de saber se havia absolvição para a sua ofensa, ouvindo da Sacerdotisa que “Deus perdoa todos os atos impensados”.
Querendo saber para onde tinha ido a alma de Plotino, um consultante ouviu que “ela havia retornando às delícias do paraíso, onde estavam Platão, Pitágoras e Minos”.
Ou, quando alguém indagou e a Sacerdotisa respondeu que não havia ninguém na Grécia mais sábio do que Sócrates, uma vez que o filósofo afirmava “só sei que nada sei”.
Portanto, aconselhamento com responsabilidade exigia da Sacerdotisa um profundo conhecimento de si - que supõe também o conhecimento do outro e uma grande intuição espiritual - e o conhecimento de como agem as leis eternas da Natureza, isto é, a lei do ritmo, a lei de ação e reação, a lei das polaridades e a lei de causa e efeito.
Profecias enigmáticas, igual a que as Parcas fizeram a Macbeth na obra de Shakespeare, dizendo que ele “jamais será vencido, até que a floresta de Birnham venha para Dunsinane”, são consideradas por Fontenrose lendas ou criações literárias, e dificilmente sairiam dos lábios da Sacerdotisa.
Com afeto.
Avô Pietro
